Não quero, de forma alguma, transformar este espaço em um muro de lamentações da criança mimada que insiste em gritar dentro de mim.
Então, acredito que não haveria maneira mais eficiente de dar nova roupagem a meu blog do que publicando meus textos que escrevo com mais gosto: críticas.
A primeira vai especialmente para meus amigos que, recentemente, foram apresentados a esse filme nota 10. Ah! E obrigado pela festinha de ontem! ;*
___
Filme: A passagem
Título original: Stay
Diretor: Marc Forster
Elenco: Ewan McGregor, Ryan Gosling, Naomi Watts, Elizabeth Reaser, Noah Bean, Isaach de Bankolé, Michael Gaston, Bob Hoskins e Jeneane Garofalo.
O novo trabalho de Marc Forster* mostra-se um muito competente exercício de criatividade. O mesmo não pode ser dito sobre o roteirista, David Benioff, que, apesar de dar uma roupagem bem interessante a um clichê fictício, encontrou problemas com o desenvolvimento de seus personagens e a linha que os une em seu desenlace.
O filme conta a história do jovem Henry Letham (Ryan Gosling - Duelo de Titãs), que se envolve em um acidente de carro e passa a fazer consultas com o psiquiatra Sam Foster (Ewan McGregor - Moulin Rouge), que apenas está substituindo a antiga médica do rapaz. Na primeira consulta, Henry revela-se perturbado e confidencia ter planejado seu suicídio para dali a três dias.
Intrigado por sua capacidade de prever acontecimentos futuros, Sam está decidido a ajudar Henry e a convencê-lo a não concretizar o suicídio. Quanto mais o médico aprofunda-se no caso, tanto mais volta a preocupar-se com sua namorada Lila (Naomi Watts - King kong), que já tentou suicídio e parece não ter se recuperado plenamente.
A história é promissora, mas problemática. O erro mais grave (e nisso posso ser suspeito, por ser um fã) é a utilização dos personagens como coadjuvantes da história. Naomi Watts é muito pouco explorada e nenhum dos papéis consegue enfoque suficiente para criar identificação com o público. Talvez Sam seja o que chegue mais próximo disso. Também fiquei surpreso por Watts ter encarado “A Passagem”, uma vez que a atriz já fez algo muito parecido em outro filme (que não irei mencionar para não comprometer a possível surpresa).
No entanto, a visão do diretor para adaptar o roteiro é brilhante. Com uma fotografia belíssima, em muitos tons de verde, que transmitem a sufocante agitação da metrópole, os pontos fortes da obra são as transições de cenas. Sempre em ângulos diferenciados, Forster abusa dos jogos de imagem. Ele apresenta ligações magníficas, que dão ritmo e entrelace de histórias à trama, como no momento em que uma porta de metrô abre-se para a saída de Sam, mas transforma-se na entrada em casa de Lila.
E assim prossegue o diretor, utilizando reflexos e repetição perturbadora de cenas para justificar o que ele revela somente nos três minutos finais de exibição. Merece destaque a primeira cena do filme, relatando o acidente sob perspectiva nada convencional. E manifesto, ainda, a infeliz perda do título original “Stay” (que pode significar passagem, mas também suporte, resistência, impedimento…), para a tradução em Português, em que essa polissemia fica comprometida. Pela criatividade do diretor, que provou ser capaz de fazer um ótimo trabalho, além de muito diferente do anterior (o mágico “Em busca da Terra do Nunca”), o filme é uma excelente pedida!
* Texto escrito em 2005
Agora comentarei algo sobre minha interpretação do filme, não recomendável àqueles que ainda não assistiram.
## SPOILER ##
Não é incrível o que Forster consegue fazer? Ao longo de todo o filme ele dá pistas de que as coisas não estão realmente acontecendo. Mas, ao invés de entregar o jogo logo de cara, conseguiu me enganar até o último minuto. Eu acreditava, durante a exibição, que Sam é que na verdade estaria louco, ou ainda que Sam e Henry fossem a mesma pessoa.
Eu sempre achei essa coisa de contar uma história toda e no final fazer o personagem acordar, como se tudo não passasse de um sonho, muito clichê. E, apesar de ter mostrado isso, o filme é bom porque é uma repaginação desse clichê: ao invés de ser tudo simplesmente um sonho, faz sentido, porque Henry imagina toda a história baseada nas coisas e pessoas que vê ao seu redor enquanto agoniza antes da morte. E outra! Dizem que quando estamos morrendo, vemos um filme de nossas vidas. Quem sabe o filme que vemos não é como o de Henry: completamente inventado, a partir de coisas que gostaríamos que acontecessem (trazer os pais de volta à vida, poder pedir desculpas, ver o grande amor uma última vez, punir-se pelos erros, etc).
Eu recomendo assistir ao filme uma segunda vez: é muito interessante perceber como cada fato exibido em cena tem uma ligação com as coisas que acontecem ao redor do Henry estatelado no asfalto. É bem do tipinho do nosso cérebro fazer umas ligações malucas entre uma coisa e outra. Enfim… adoro A Passagem!
## FIM DO SPOILER ##
phewww…