O primeiro impulso do dia é lembrar.
Quisera eu controlar meus pensamentos e enviá-los por caminhos de terra já abertos, mas ainda assim inexplorados. Caminhos que transmitiriam a estranha sensação de familiaridade anônima.
Lá eu poderia abrir não só os olhos, mas o coração. Porque abrir os olhos é fácil, mas implica gravar a fogo impressões cruas de uma vida andarilha, que não freqüenta aqueles caminhos de terra, mas estradas de pedra dura, com sua realidade bruta, implacável. E lá eu deixaria sair do coração toda a angústia e toda a frieza, numa sangria desatada pela não continuidade do sofrimento.
O problema é que os caminhos são todos conhecidos, os olhos estão sempre abertos e, quando não se vive inerte, vive-se no futuro do pretérito. Simples assim.
Crio, na tentativa de me enganar aos outros, tantos novos eus quantos forem os meus dias. Nascem por cima, como crostas que se fixam para proteger, mas que acabam sufocando. E a cada novo eu, mais distante fico de mim. E do mundo. Se percebem, num vacilo, meu desalento, dizem: “Você têm algo de triste”. Porque não sou mais um. Sou o conjunto do que fui e do que poderia ter sido. Sou o rasgar de páginas em branco, circunflexo ao próprio esquecimento que não chega.
As lágrimas do passado, que até há pouco eram nascentes gorgolejantes da parede da memória, hoje mal chegam a beirar os olhos, tão densas e medonhas se tornaram. As que estão por vir, algo me diz, não virão.
Porque minhas novas formas transformaram-me numa espécie de lua cheia, solitária e fingida, que tenta iluminar um mundo coberto de fumaça com a luz que nem ao menos tem.
phewww…

4 comments
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Abril 2, 2007 às 1:43 am
JuJu
afu!
e vc me vem falar de metáforas?
quando eu nem ao menos consigo roubar a luz de outros para tentar iluminar o que a mim não pertence?
vive-se no futuro do pretérito, e o que poderia não possui nem “se” para acompanhá-lo.. vc não poderia ter dito melhor..
obrigada, Príncipe Poeta, vc ilumina tudo, mesmo quando uma tristeza que não deveria lhe viver insiste…
te amo mais!
XD
Abril 8, 2007 às 2:12 am
Jacidio
Diga-se de passagem que a crosta que hoje lhe cobre, também me faz vitima de minhas obstinações. Sempre tentamos fazer com que nossos amigos nos queiram bem, mas para isso muitas vezes deixamos nossos preceitos para trás. Digo isso, pois a vida nos cobra maturidade quando queremos apenas relaxar, nos dá adversidade quando já estamos esgotados de lutar pelas nossas idéias.
Mas sejamos ainda mais fortes para abrir novos caminhos e compreender o que nosso interior pode oferecer, não só para os outros, mas para nós mesmos. Pois às vezes nós achamos que nos conhecemos, mas nossas “capas” não nos permitem desenrolar de nossas frustrações e simplesmente seguir em frente. Parece que falta coragem, mas nos falta alto conhecimento para enfrentar nossos medos e assim os medos dos outros já não nos assustarão mais.
Abraço. Continue escrevendo.
Abril 9, 2007 às 5:09 pm
Vania Paula
Faço das suas as minhas palavras..
Bjinhus..
Abril 25, 2007 às 6:23 pm
anasegundo
Meu deooooos, que acontece?? A gente fez uma greve de blog silenciosa e mútua?? Agora eu estou realizando um movimento, se chama “reavive seu blog”. Vai lá, Tigo, suspire um pouco mais forte e escreva!