O primeiro impulso do dia é lembrar.

Quisera eu controlar meus pensamentos e enviá-los por caminhos de terra já abertos, mas ainda assim inexplorados. Caminhos que transmitiriam a estranha sensação de familiaridade anônima.

Lá eu poderia abrir não só os olhos, mas o coração. Porque abrir os olhos é fácil, mas implica gravar a fogo impressões cruas de uma vida andarilha, que não freqüenta aqueles caminhos de terra, mas estradas de pedra dura, com sua realidade bruta, implacável. E lá eu deixaria sair do coração toda a angústia e toda a frieza, numa sangria desatada pela não continuidade do sofrimento.

O problema é que os caminhos são todos conhecidos, os olhos estão sempre abertos e, quando não se vive inerte, vive-se no futuro do pretérito. Simples assim.

Crio, na tentativa de me enganar aos outros, tantos novos eus quantos forem os meus dias. Nascem por cima, como crostas que se fixam para proteger, mas que acabam sufocando. E a cada novo eu, mais distante fico de mim. E do mundo. Se percebem, num vacilo, meu desalento, dizem: “Você têm algo de triste”. Porque não sou mais um. Sou o conjunto do que fui e do que poderia ter sido. Sou o rasgar de páginas em branco, circunflexo ao próprio esquecimento que não chega.

As lágrimas do passado, que até há pouco eram nascentes gorgolejantes da parede da memória, hoje mal chegam a beirar os olhos, tão densas e medonhas se tornaram. As que estão por vir, algo me diz, não virão.

Porque minhas novas formas transformaram-me numa espécie de lua cheia, solitária e fingida, que tenta iluminar um mundo coberto de fumaça com a luz que nem ao menos tem.

phewww…